Licença
os três balançam a cabeça
o casal de amigos com sua piada interna, com sua piada interna e com sua piada interna acabam e saem
o todo-de-branco: licença e boa-tarde!
mesa vazia + eu = local propício para loucos
chega-me correndo um cabeol Chico César, deixa a bandeja e, atrapalhado, coloca na frente dela um maço de papeis enrolados
casaco na cadeira e vai buscar o omelete e a fruta.
[reparo a bandeja e o comparo com o guri da montanha de rúcula
só que era uma montanha de risoto!
enquanto isso senta uma menina educada na minha frente]
grita algo com a tia do melão e volta correndo
pega a bandeja e volta com DOIS pedaços de omeletes e DOIS de melão.
sai correndo outra vez
some
procuro
acho-o no bebedouro com um copo plástico
reflito ali que trinta centavos fazem a diferença e que a montanha de risoto deve ser a melhor (se não for a única) refeição do sujeito.
volta o Chico
sua presença OFUSCA os outros componentes da mesa
palma da mão com palma da mão e manda um salve-ave-maria-sei-lá
sorrio e recebo outro de volta
[a menina educada se faz
pede licença um manolo dos dread com fones de ouvido do meu lado
ele recebe a tal da salvação]
a montanha é destruida pelo e somente pelo garfo.
esqueci: fede
[acho que foi por isso que a menina fez a egípcia antes]
o maço de folhas que estava agora no colo vai para dentro da camisa, pela gola
reforço: fede
queria ficar mais ali, analisando-o, mas já acabava meu almoço...
Mama África!
(Anti)Filosofia Natural de RU
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
#massa e medicina
Sempre achei o pessoal da saúde muito diferente do pessoal da comunicação. Acho facilmente perceptível - seja por causa das roupas, do comportamento, dos gestos, seja por causa do vocabulário - que são "culturas" distintas.
Ademais, sempre achei fácil também diferenciar o pessoal da medicina do resto da área da saúde. A medicina é o ápice. Qualquer olhar mais atento percebe que eles são os mais sérios, os que parecem mais centrados, mais educados, tipo “outro nível”. Quase inalcançáveis, por nós, meros mortais, pessoas reles da comunicação.
Essa foi a visão que sempre tive, até observar um futuro médico almoçando no RU. Acho que esse é um dos únicos momentos em que somos todos iguais. Nessa hora, e somente nessa hora, é que podemos notar que pertencemos a mesma classe. Humanos, demasiadamente humanos.
Ele avançava sobre um prato de massa como se este fosse o último do planeta. Que cena! Tá certo que eu gosto de gente intensa, mas não desse jeito. Onde foi parar todo aquele comedimento, aquela educação? O que o fez liberar aquele instinto primitivo? Será que um prato de massa pode revelar tanto sobre uma pessoa?
Sei lá. Só acho passei a acreditar um pouco menos na humanidade.
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